O Pastel de Feira no Bexiga e a Batalha dos Molhos Caseiros (Crônica Urbana 2024)
A feira livre de domingo no Bexiga tem mais decibéis que uma sessão plenária em dia de votação de imposto.
A barraca de pastel é o verdadeiro santuário ecumênico da cidade.
Dona Carmela, neta de calabreses que desembarcaram na Hospedaria dos Imigrantes em 1898, disputava o vidro de vinagrete com um descendente de samurais do bairro da Liberdade.
— Bote pouco molho, seu Tanaka, que esse pimentão aí é bravo!
— Pimentão não mete medo em quem comeu raiz-forte no café da manhã, dona Carmela.
A massa frita estalava no tacho com som de aplauso em teatro municipal.
O pastel de carne vinha pelando, exigindo aquela primeira mordida de respiro, onde o sujeito assopra desesperadamente para dentro da própria boca para não queimar o palato.
Ali, entre caixotes de tomate caqui e maços de rúcula hidropônica, a República Federativa do Brasil fazia sentido pleno por quinze minutos.
Não havia déficit fiscal.
Não havia crise cambial.
Havia apenas a massa dourada, o caldo de cana com limão e a certeza absoluta de que domingo de manhã sem feira é um erro imperdoável do calendário gregoriano.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 22/02/2024 às 02:40.







