O Mercadão de Belém e o Cheiro do Pará na Madrugada (Crônica Urbana 2016)
Antes de o sol despontar sobre a curva do Rio Guamá, o Ver-o-Peso já é um continente acordado.
O cheiro de peixe fresco, tucupi amarelo fermentando em cuias e folhas maceradas de priprioca impregna a brisa do porto.
As canoas descarregam os paneiros de açaí com um ritmo quase litúrgico.
Dona Nazaré montava sua barraca de tacacá com a perícia de quem maneja fogo e veneno com elegância.
A goma de tapioca translúcida, o jambu que adormece suavemente a língua e o camarão seco salgado formam uma alquimia que nenhuma universidade europeia saberia reproduzir sem manual de instruções.
Um comprador de madeiras do sul tentou apressar a cuia.
— Sai logo esse tacacá, minha senhora?
Dona Nazaré olhou para ele com a serenidade de quem conhece a força das marés amazônicas desde antes da chegada de Pedro Álvares Cabral:
— Meu filho, o jambu precisa de tempo pra tremelicar no beiço. Quem tem pressa na Amazônia engole espinha de pirarucu e não volta pra contar a viagem.
O homem sentou no banquinho de plástico.
Tomou o primeiro gole da cuia.
A língua amorteceu num formigamento delicioso.
Apressado nenhum resiste ao encanto do tucupi bem temperado.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 23/08/2016 às 04:50.







