O Entardecer na Praça da Estação em Belo Horizonte e o Queijo Curado (Crônica Urbana 2021)
O relógio da torre da Estação Central de Belo Horizonte não corre: ele sugere a passagem das horas com muita prudência.
Seu Tião tirou do bolso uma navalha de cabo de chifre de boi e um pedaço de queijo da Canastra embrulhado em guardanapo de pano.
Cortou uma fatia tão fina que dava para ler a manchete do jornal através da massa amarela.
— Esse queijo aqui — disse ele, oferecendo a ponta da lâmina ao companheiro de banco — tem quatro meses de cura na meia-luz da serra. Não tem pressa nele. Coisa boa na vida não aceita micro-ondas.
O apito do trem de carga cortou o entardecer sobre a serra do Curral.
Tantos vagões de minério de ferro rolando pelos trilhos em direção aos portos do oceano.
— Vai embora a terra vermelha de Minas pro outro lado do mar — filosofou o amigo, mastigando devagar. — E a gente fica aqui com o queijo e a prosa.
— E o senhor queria mais o quê, compadre?
Ficaram quietos.
O céu de Minas tingiu-se de um lilás suave que nenhum pintor renascentista conseguiu igualar.
O ferro partia nos trilhos; a paz permanecia no banco da praça.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 23/08/2021 às 03:22.







