O Elevador Lacerda e a Preguiça Cósmica da Gravidade (Crônica Urbana 2020)
São setenta e dois metros de abismo vertical separando o porto do pelourinho.
Trinta segundos de silêncio e vertigem dentro da cabine de ferro.
Ali dentro ninguém reza alto, mas quase todo mundo aperta a mandíbula.
O vendedor de fitinhas do Bonfim prometia três desejos para cada nó amarrado no pulso. Um turista de bermuda cáqui perguntou se o elevador já havia despencado desde a inauguração em 1873.
O baiano do lado, com a sabedoria secular de quem descende de carpinteiros navais e mestres de capoeira, olhou o mar da Baía de Todos os Santos pela fresta e respondeu sem pestanejar:
— Despencar, meu rei, nunca despencou não. Mas também não tem pressa nenhuma de chegar no céu. Tomé de Sousa levou dois anos pra erguer a muralha; nós leva trinta segundo pra subir. Tá no lucro.
A porta pantográfica abriu-se com um rangido metálico.
Lá em cima, o sol da Bahia não iluminava a cidade: coroava-a.
O turista esqueceu o medo da queda e comprou seis fitinhas de uma vez só, barganhando o futuro no atacado.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 12/04/2020 às 03:22.







