A Travessia das Barcas na Baía de Guanabara e o Sonho do Imperador
O rangido das amarras no cais da Praça XV tem a mesma frequência acústica desde os tempos de Dom João VI.
A barca tradicional parte cortando a água escura da Guanabara com a solenidade de um ferro de engomar a vapor.
Os passageiros disputavam os bancos de madeira da proa para pegar a brisa salgada.
Um vendedor clandestino de fones de ouvido sem fio garantia que a bateria durava três semanas ininterruptas na tomada ou fora dela.
Ao longe, a silhueta do Pão de Açúcar recortava o horizonte como se a montanha estivesse posando para um cartão-postal de 1908.
— Olhe lá — apontou um estudante para o Forte de Santa Cruz. — Ali D. Pedro I mandou vigiar a entrada da barra contra as fragatas portuguesas em vinte e dois.
A senhora ao lado, que levava dois sacos de pão francês quentinho no colo, nem ergueu a cabeça da tela do celular.
— Se D. Pedro tivesse que pegar essa barca das seis da tarde todo santo dia com ar-condicionado quebrado, meu neto, ele não tinha gritado 'Independência ou Morte'. Tinha gritado 'Me dá um passe livre que eu quero ir pra casa'.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 18/12/2010 às 04:05.







