A Parada de Ônibus no Eixo Rodoviário de Brasília e a Linha do Horizonte (Crônica Urbana 2023)
Lúcio Costa desenhou as asas. Oscar Niemeyer esculpiu as cúpulas brancas em concreto armado.
Mas quem habita o Eixo Rodoviário às cinco da tarde é o homem da marmita de alumínio.
O céu do Planalto Central é de uma imensidão que humilha qualquer ambição imperial: não há montanhas para escorar o olhar, apenas o azul infinito que desaba sobre o cerrado.
Na tesourinha da Asa Norte, o ônibus 'Circular W3' atrasava quarenta minutos.
Um rapaz de terno sintético, recém-aprovado em concurso público temporário, abanava-se com o crachá plástico.
— Esse traçado modernista é maravilhoso nos livros de arquitetura suíça — murmurou ele para uma senhora sentada no banco de concreto. — Mas quem planejou uma parada sem sombra no meio do cerrado de setembro claramente almoçava em Genebra.
A senhora abriu uma sombrinha estampada com flores amarelas.
— Meu filho, Juscelino prometeu cinquenta anos em cinco. Quarenta minutos de espera no ponto tá dentro da média histórica nacional.
O ônibus apontou na curva do asfalto quente tremeluzindo como miragem no deserto.
Subiram todos em silêncio ordeiro.
Ao fundo, o Palácio do Congresso brilhava reluzente, intocado pela poeira vermelha que tingia a barra das calças do povo.
Cristiano Ricardo — Escritor
Crônicas Brasileiras & Flagrantes do Cotidiano · Publicado em 01/12/2023 às 02:15.







